Posts tagged: Madrid

Vinte e três de janeiro de dois mil e dez

By Nuno Gomes Lopes, 24 de Janeiro de 2010 0:53

Sobre a alta velocidade e a pequena burguesia

Quando um ministro diz que, graças ao TGV, Lisboa pode tornar-se a praia de Madrid, as suas palavras têm o poder de nos fazer lembrar três figuras que um filósofo italiano, comentando a teoria do carisma de Max Weber, eleva a categorias: o demagogo, o imbecil instintivo e o palhaço carismático. Mas mais importante do que projectar tais palavras em quaisquer categorias é percebermos que a política pertence hoje inteiramente àqueles que se convencem daquilo que dizem. É aí que reside todo o segredo do discurso político. Mas as palavras deste ministro ilustram também outra coisa: que, no horizonte dos governantes, o único modelo de classe que existe (ou em que todos se devem transformar) é precisamente uma classe que não chega a sê-lo: a pequena burguesia universal, cujas bases materiais de existência assentam num modelo de vida que se manifesta em duas dimensões: o consumo e o tempo livre. Lisboa como praia de Madrid, Caparica como praia de Lisboa: trata-se sempre do mesmo tropismo – marítimo e litoral – que define o movimento a alta velocidade de uma massa que nunca gozará do luxo da lentidão.

António Guerreiro, citado no Arrastão.

Título do Ano 51

By Nuno Gomes Lopes, 16 de Janeiro de 2010 1:58

TGV pode transformar Lisboa na “praia de Madrid”

António Mendonça, no Jornal de Negócios.

Quinze de janeiro de dois mil e dez

By Nuno Gomes Lopes, 16 de Janeiro de 2010 1:55

Não estou preocupado em justificar mais um investimento, mais uma obra pública, mas em salientar o impacto positivo que isso vai ter em termos económicos

António Mendonça, no Jornal de Negócios.

Refugos. Ibéria

By Nuno Gomes Lopes, 8 de Dezembro de 2009 13:09

Esther Rodríguez afadigava-se no seu encontro semanal com os moradores de El Escorial, um barrio suburbiano da Grande Metrópole de Madrid. Muitos, senão quase todos os setenta milhões de metropolitanos de Madrid não o eram de origem, mas oriundos de toda a Ibéria, España de seu antigo nome. Refugos das alterações que se chamavam de temporales quando surgiram, e eternas ao fim de mais de um século de mar descomposto e insubmisso. Com as cidades costeiras arrasadas, o Governo Centralista optou pela lógica proteção dos eleitorados trazendo-os para próximo dos eleitos, e nas províncias deixou-se pouco mais que administradores agrícolas e mineiros. Criando uma metrópole, encerrou-se um país.

Esther corria todas aquelas caras e indagava das suas origens, caras cansadas que pouco ou nada revelavam que não a modorra dos hábitos estabelecidos. Da vivienda unifamiliar para o trabajo-núcleo, dependurados dos trams das altas líneas, em voo lento e incerto.

Encargada Esther, le importaría hablar más, más devagar, que no la entiendo.

Devagar ¿qué?

e essa palavra estranha zurziu-lhe as entranhas do cérebro até que, dois dias depois, de volta à uni, já com a mão no sensor, se lembrou. Da sua abuelita, nascida ainda na província, de um lugarejo perto de Oporto chamado Matosiños. Dizia-lhe, sempre que a via a correr pela uni, Corre más devagar, chica, que te vas a romper los huesos.

Devagar! A sua mão largou o sensor e logo a outra acionou la red, providência do Serviço Centralista de Informação, SCI. O dicionário sugeria-lhe de vagar, duas palavras. Procurou antes na busca geral, e surgiu-lhe uma página brasileña, conteúdo normalmente evitado pelas pessoas de bem. Bloqueada, com o beneplácito do SCI. Desceu à rua sem mais – se aquela mulher dizia devagar e o dizia de uma vez só, não era invenção. Encontrou-a com a brújula que o seu estatuto de encargada lhe outorgava num bar perto da sua uni. Falou-lhe sem rodeios. Perguntou-lhe pelo empleo, exigiu-lhe dados pessoais. Carlita Gómez, residente local, casada, dois infantes. Olhava Esther de olhos arregalados, temente por si e pelos seus. Esther, descarregada de razões para a travar mais, concluiu:

¿Y su familia, de dónde és?

Mi visabuelo vino de Porriño, Encargada. Cerca del Viejo Vigo. De donde sacaban el granito, el gran cráter. ¿Lo conoce?

Publicado no Novas da Galiza de Novembro

Atualizações 5/7/09

By Nuno Gomes Lopes, 16 de Julho de 2009 5:37

* No Plano Estratégico de Transportes (PET) do Ministério das Obras Públicas encontra-se isto:

(…)

Concluir e executar o Plano Director da Rede Ferroviária Nacional, articulando as soluções de alta velocidade nas deslocações internacionais e no eixo Lisboa-Porto-Vigo com a concretização de um plano para a rede convencional, reforçando a interoperabilidade segundo padrões europeus, com destaque para a migração de bitola, eliminando os estrangulamentos

(…)

Assegurar no planeamento da Rede Ferroviária de Alta Velocidade do território continental, a articulação com o reforço e modernização das linhas e serviços do caminho de ferro convencional e com o restante transporte público e, quando se trate de estações localizadas fora dos perímetros urbanos, a ligação à rede rodoviária fundamental (IP e IC)

(…)

Via Transportes em Revista.

Gosto. Fala de um ‘Plano Director da Rede Ferroviária Nacional’, que desconhecia, mas que me agrada muito. E para além de deixar no ar a promessa da ‘migração de bitola’, não considera o eixo Lisboa-Porto-Vigo como um eixo internacional. Assim sim.

Fala também de ‘reforço e modernização das linhas e serviços do caminho de ferro convencional’. Não imagino o que isto quererá dizer.

* António Alves e a AV para Madrid, na Baixa do Porto:

Piruetas

Henrique Raposo, cronista do Expresso, no passado dia 20 de Junho escrevia no seu blogue um texto apologista da ligação TGV Lisboa-Madrid e apelidava de “grã-finismo tonto” a ligação Lisboa-Porto. O homem ia mais longe (efeitos com certeza da velocidade estonteante deste tipo de comboios) e falava até de um TGV Lisboa-Lyon. Do seu texto transcrevo as seguintes frases que me parecem resumir o pensamento do citado sobre o assunto.

“Parece-me evidente que Portugal precisa de uma Ligação de TGV à Europa. Lisboa – Madrid é precisa. Já me parece novoriquismo a ligação Lisboa-Porto.”

“Mas a questão continua a ser a mesma: temos dinheiro para o fazer nos próximos anos? A dívida externa passou de 14% do PIB, em 1999, para 100%, em 2008. Saber esperar é uma virtude. E saber as prioridades também. Lisboa/Madrid é necessário. Lisboa/Porto é grã-finismo tonto.”

Numa breve troca de emails fiz-lhe ver que, além do facto dos TGV’s serem competitivos apenas para distâncias de 500 a 700 km e tempos de viagem até 3 horas – Lisboa-Lyon é lirismo -, o traçado proposto era uma aberração que deixava mais de metade de Portugal de fora, pois ninguém de Braga ou do Porto estaria disposto a descer de comboio 350 km para sul, 200 para leste atravessando o Alentejo e, depois, mais 400 km para nordeste em direcção a Madrid. Isto é, uns absurdos 400 km suplementares quando afinal Madrid se situa à latitude de Coimbra (dado desconhecido lá para o sul) e a escassos 500 km desta região que vai do Minho até Coimbra. Provei-lhe também que os próprios estudos da Rave provavam que o corredor Grande Porto e Norte Litoral – Madrid teria mesmo maior procura que o corredor Lisboa – Évora – Badajoz – Madrid tanto em passageiros como em mercadorias. Mais importante ainda: informei-o que o corredor Lisboa-Porto seria mesmo o único que poderia gerar tráfego suficiente para se auto sustentar. A isto respondeu-me que defendia o TGV Lisboa-Madrid não por causa de quem “vai daqui para lá, mas quem vem de lá para cá”. A isto questionei-o se “quem vem de lá para cá” seria suficiente para pagar tal quimera. Até hoje não obtive resposta.

(…)

* Uma mulher: Anna Paquin

tudo isto e muito mais em coisar.tumblr.com

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